Os tradicionais táxis amarelos, símbolo do Rio de Janeiro, estão cada vez mais sob a condução de motoristas veteranos. Dados da Secretaria Municipal de Transportes mostram que quase 40% dos permissionários já têm mais de 60 anos, e mais de 12% ultrapassam os 70. Entre os auxiliares, a proporção também saltou: de 9,2% para 24,9% em apenas uma década.
Esse envelhecimento da categoria é resultado de um conjunto de fatores. A consolidação dos aplicativos como Uber, 99 e inDrive afastou novos motoristas e reduziu a renda de quem permanece no táxi. A pandemia agravou ainda mais a situação, derrubando a demanda e acelerando a migração de profissionais para as plataformas digitais.
Histórias como a de Manoel Carlos Tavares, 78 anos, ilustram bem o drama vivido por muitos. Há quatro décadas no ponto de Laranjeiras, ele viu seu faturamento despencar.
— “Nos anos 1990 conseguia tirar até R$ 600 num dia. Hoje, ganho de R$ 3 mil a R$ 4 mil por mês, rodando de oito a dez horas. Só o plano de saúde já consome quase isso. Como parar?” — questiona.
Outro exemplo é o de Edelmo Silveira Luz, também de 78 anos, que entrou na profissão após os 60. Diferente de Manoel, não trabalha em ponto fixo e aposta no aplicativo Taxi.Rio. Ele rejeita os apps privados e garante que, mesmo em comunidades, nunca teve problemas:
— “Basta conhecer as regras: abrir os vidros, ligar a luz interna e os faróis do carro.”
A realidade, no entanto, é dura para muitos. Marcos do Pandeiro, 80 anos, veterano de quase seis décadas de volante, leva para casa cerca de R$ 150 por dia. Ele complementa a renda com a aposentadoria e apresentações musicais.
— “Existe uma concorrência desleal. Pagamos impostos, fazemos vistoria, temos que manter o carro em bom estado. Deveria haver regras iguais para todos.”
Mesmo diante das dificuldades, alguns sinais de renovação aparecem. O presidente do sindicato, Hildo Braga, aponta que motoristas com menos de 35 anos têm procurado a entidade, interessados em migrar dos aplicativos para o táxi.
— “É um processo gradual, mas pode trazer um equilíbrio etário nos próximos anos.”
Enquanto isso, muitos veteranos seguem firmes, mesmo após os 70 e 80 anos, sustentando famílias, arcando com altos custos de vida e enfrentando a queda de valor das autonomias — cuja transferência foi suspensa por decisão do STF.
Entre dificuldades, resiliência e histórias de vida, o que se vê nas ruas do Rio é uma categoria marcada pela experiência. Os “grisalhos do volante” mantêm viva a tradição dos amarelinhos, resistindo às transformações do mercado e às pressões do dia a dia.






